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LOKI – Arnaldo Baptista (Análise do Filme)

In Cultura, Diversão on 22 de abril de 2010 at 16:41

Contemporaneamente, quando se pensa em rock brasileiro, pouco se recorda da trajetória e da importância dos Mutantes. Menos ainda os olhares e os pensamentos se voltam para Arnaldo Baptista. Parece ser, por isso, que Paulo Henrique Fontenelle dirigiu e o Canal Brasil produziu o filme LOKI – Arnaldo Baptista. O documentário, lançado em 2008 nos cinemas brasileiros, lança uma luz particular sobre a vida e a obra do ex- e eterno Mutante. Dono de uma vida intensa, conturbada, criativa e repleta de arte, Arnaldo Baptista é resgatado neste documentário.

O filme mostra a trajetória do artista desde sua infância, chegando a seus primeiros flertes com a música, que culminaram em uma banda com amigos da escola. Banda essa que foi aos poucos se transformando nos Mutantes. Explorando esta fase de grande sucesso para Arnaldo, o filme segue falando de seu casamento e sua separação de Rita Lee, evento que causou forte impacto na vida do Mutante, agravado pelo fim da banda e por uma tentativa de suicídio. Assim, o filme não poderia deixar de destacar a carreira solo de Arnaldo e suas bandas nesse período. Finalmente destaca-se sua reaproximação como o irmão Sérgio Dias e as novas aparições dos Mutantes a partir de 2006.

Diferente de outros documentários sobre personalidades, LOKI conta a história que pretende através de um interessante mosaico de depoimentos de amigos, fãs ilustres, companheiros e nomes da música brasileira, entrecortando depoimentos do próprio Arnaldo enquanto ele pinta um quadro. Tudo isso, sem um narrador central, trazendo um aspecto mais intimista para a produção.

Outros aspectos acrescentam vida à narração, ao que ela apresenta uma série de imagens fotográficas e em vídeo dos momentos da vida de Arnaldo e dos Mutantes; além de contar com uma trilha sonora que percorre a trajetória do artista como compositor, trazendo músicas de sucesso de sua banda mais famosa, bem como de sua carreira solo. O recurso mais interessante que o filme apresenta é, talvez, o jogo que o diretor faz com o quadro que Arnaldo pinta durante o documentário. Enquanto as situações se descortinam na trajetória do filme a percorrer a vida de Arnaldo, elas são eternizadas em partes da pintura sendo ainda adicionadas em sincronia com o filme. No final o quadro mostra a vida de Arnaldo, ao mesmo tempo em que o filme transcorre.

Os depoimentos surgem, também, como ilustrações muito particulares das fases da vida de Arnaldo. O diretor parece buscar se eximir de levar o filme a assumir uma perspectiva própria à respeito dos fatos, dando liberdade aos entrevistados de contar histórias sobre suas perspectivas e com suas palavras, aparentemente sem cercear ninguém. Não obstante, a ausência de um narrador central talvez peca no sentido dele poder oferecer uma neutralidade ou uma perspectiva pretensamente onisciente dos evenos da vida de Arnaldo, como se costuma ter em outros documentários do gênero. Por outro lado, ele fornece ao espectador a possibilidade de interpretar os fatos e chegar às suas próprias conclusões, construindo assim sua imagem de Arnaldo Baptista. Assim, muito mais do que meras ilustrações, os depoimentos constróem e tramam a vida de Arnaldo tal qual contata no documentário.

Porém, esse aspecto por vezes nubla alguns momentos fortes e polêmicos da vida de Arnaldo. Muitas vezes os entrevistados referem-se à tentativa de suicídio como acidente, assim como o próprio Arnaldo, ou fala-se dos efeitos e dos comportamentos do artista em razão das drogas sem falar diretamente delas. Salvo em uma ocasião que é mencionada uma noitada com ácido em Londres.

Assim, a narrativa emerge como um força que tende a resgatar a imagem e a importância de Arnaldo Bastita não apenas como cabeça pensante por trás dos Mutantes, mas como uma figura canônica da música e do rock brasileiros. O próprio nome do documentário – LOKI – faz referência ao primeiro disco solo de Arnaldo, que por si é referenciado como um dos maiores álbuns da música brasileira. Tal esforço pode ainda ser notado, quando Paulo Henrique Fontenelle trás à cena depoimentos de Sean Lennon, Curt Cobain e Devendra Banhart, sendo eles artistas estrangeiros que falam como fãs dos Mutantes e de Arnaldo.

Muito disso é perceptível também quando falam de Arnaldo como uma figura de peculiar genialidade dona de uma inquietude produtiva e criativa que sempre resulta em obras de grande qualidade artística e de formato revolucionário para a música brasileira. Essa tentativa de resgate se assemelha com o também recente documentário sobre Simonal: “Ninguém sabe o Duro que Dei”, na tentativa de trazer à baila nomes importantes e quase esquecidos ou pressupostamente injustiçados da música brasileira.

De uma forma ou de outra, LOKI coloca em evidência um artista que esteve no meio de “Gilbertos Gils” e “Caetanos Velosos”, revolucionando a música brasileira, mas que passou um tempo no ostracismo resultado de uma vida muitos finais e poucos recomeços. O recomeço de Arnaldo Baptista fica traçado neste documentário, que além de um bom filme, é um documento importante e bem vindo da história musical do Brasil.

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